29 de março de 2018

Chorar lava a alma?

Dizem que chorar lava a alma, mas também dizem que os homens não choram. Diz-se muito daquilo que se sente. Assim que nascemos temos de chorar, para depois aprender a não o fazer. Aprendemos que essa é uma fragilidade que devemos esconder numa gaveta, junto com as lamechices, os corações cor-de-rosa, as festinhas e o “amo-te”.
Tal como tudo aquilo que podemos fazer como seres humanos otimizados que somos, o choro tem uma função, é importante. Da mesma forma que o medo tem uma base funcional importante na nossa vida, o choro é também essencial e não deve ser contido ou controlado. O problema surge quando aprendemos a lidar incorretamente com esta função que o nosso corpo sabiamente desenvolveu.
Saímos do túnel escuro ontem estivemos mais de 9 meses e todos os seres estranhos e de batas brancas que estão neste espaço tão iluminado ficam aliviados quando choramos. Depois deste momento, o choro é um aviso, uma arma e um problema. Servirá de termómetro enquanto os bebés vão crescendo. É uma arma quando o usamos como um meio para chegar a um determinado fim. É um problema porque se limitam as crianças desde bebés a não largarem as suas lágrimas, a não partilharem as suas águas com o mundo. Faz barulho. Não nos deixa dormir. Mostra fragilidade. Entre outras e outras e outras.
Passamos uma vida a não chorar. Contemos. Engolimos as emoções porque não é bonito mostrar. Então elas ficam, com armas e bagagens na nossa barriga que às vezes incha voluptuosamente, deixando antever um mar de sentimentos engasgados.
Quando decidimos olhar para nós, seja em terapia ou em trabalho de desenvolvimento pessoal, temos de olhar para esta nossa barriga. É preciso fazer abdominais emocionais para deixar sair aquilo que já não nos serve e que não conseguimos guardar mais. Mas estes abdominais são mais difíceis que os normais. Mais do que ao corpo, fazem doer a alma. Ou assim parece. É por isso que os primeiros choros da vida adulta são insuficientes. Não são conectados, não lavam a alma e deixam-nos zonzos com a respiração que se (re)estabelece e com o chute de energia que sobe à cabeça e aos olhos em particular. Não choramos com a barriga e a descarga é falsa: há apenas a movimentação de alguma tensão de um lado para o outro no corpo. Mas nesta fase podemos continuar desconectados mas há o ressurgimento de uma vontade de olhar de uma forma diferente.
É quando mergulhamos intensamente em nós que navegamos na possibilidade de nadar nas nossas lágrimas: o choro é conectado e vem dessa barriga tão cheia que precisa de extravasar, mas delicadamente, pulsando lágrima a lágrima em cada inspiração e expiração.
Texto de Ana Caeiro - Psicoterapeuta Corporal em Biossíntese
Site: http://psicoterapiacorporal.pt/
E-mail: psicorporal.bio@gmail.com

Foto de Volkan Olmez em Unsplash

26 de fevereiro de 2018

Estilos de Vinculação e Relações Íntimas



A forma como nós adultos entramos em relação íntima reflete a forma como em crianças estabelecemos o vínculo com os nossos cuidadores. A Teoria da Vinculação, desenvolvida por John Bowlby, demonstra-nos que a interação entre pais e filhos define o terreno a partir do qual posteriormente estes desenvolvem as suas relações. Bowlby concluiu que a necessidade humana de partilhar a vida com alguém faz parte da nossa constituição genética e não tem nada a ver com o quanto nos amamos ou o quanto estamos bem connosco próprios. Estar bem consigo próprio não implica não querer um parceiro amoroso, apenas interfere na qualidade das relações interpessoais.


Em adulto, existem 3 estilos principais de vinculação: o Seguro, o Ansioso e o Evitante. Há inúmeros fatores que influenciam esta classificação, mas, generalizando, podemos dizer que se as figuras parentais foram disponíveis e presentes, o vínculo desenvolvido corresponde ao Seguro; se foram inconstantes e instáveis, o vínculo é o Ansioso; se foram distantes e rígidas, o vínculo é o Evitante. Em termos práticos, esta dinâmica reflete-se na visão subjetiva que hoje temos da intimidade, na forma como lidamos com os conflitos, no comportamento sexual, na capacidade de expressar desejos e necessidades e nas expectativas perante o parceiro e a relação.

As pessoas com um estilo de vinculação Seguro sentem-se confortáveis com a intimidade e tendem a ser calorosas e afetivas; as pessoas com um estilo Ansioso anseiam pela intimidade, preocupam-se bastante com as relações e tendem a ficar inquietas com a capacidade do seu parceiro as amar; as pessoas com um estilo Evitante veem a intimidade como uma perda de independência e tentam constantemente minimizar a aproximação. Cada estilo, ao ter sido adquirido em criança, torna-se a modalidade conhecida e familiar de estar em relação, o que não significa que seja a que nos faz sentir bem. Enquanto a mesma for inconsciente, os nossos mecanismos de interação são automatizados e cristalizados nos padrões de comportamento aprendidos. O primeiro passo para a libertação é ganhar consciência do que nos condiciona e nos protege de viver situações que enquanto adultos já não representam um perigo, mas a nossa perceção a partir do Self Infantil ainda o são.

Perceber os estilos de vinculação é uma chave para a compreensão do comportamento de cada um em contexto de intimidade e, consequentemente, para a identificação das dificuldades inerentes ao (des)encaixe entre as pessoas durante uma relação. A maioria encontra-se no Estilo Ansioso ou no Estilo Evitante e nenhum deles nos proporciona um terreno que permita o florescimento de uma relação saudável e nutridora. Pode ser assustador saber que estamos ‘programados’ para agir de determinada maneira, mas a boa notícia é que também temos a capacidade de alterar, ou pelo menos melhorar, o nosso estilo de vinculação rumo a relações que nos complementem e nos ajudem a viver a melhor versão de nós próprios, sem dependências.

Todos nós temos a necessidade básica de criar vínculos, a forma como os criamos é que varia. Ainda que nos insiramos numa das classificações mencionadas, nada é estanque ou fixo. Não se trata de as definir como boas ou más, mas sim de compreendê-las e sentir o que verdadeiramente queremos e precisamos de viver através de uma relação. Ao contrário do que alguns poderão pensar, vínculo não é sinónimo de dependência e ter relações íntimas não implica inevitavelmente perder a liberdade. Tudo depende da forma como cada um vive, na sua realidade interior e exterior, esse mesmo vínculo.

Cada estilo encara a vinculação segundo determinadas crenças, as quais se refletem nos níveis de (des)conforto com a intimidade, na necessidade de atenção por parte do parceiro e na preocupação pela relação. Essas mesmas crenças são as responsáveis por detetar e monitorizar a sensação de segurança e disponibilidade das nossas figuras de referência. Precisamos de nos sentir seguros – já Maslow o indicava como segunda necessidade básica do ser humano, após a fisiológica! Independentemente do estilo desenvolvido, cada vez que sentimos algo ‘errado’ na sequência de uma atitude do parceiro, o nosso sistema ativa o alerta e sentimo-nos impotentes de o acalmar até o parceiro nos dar sinais claros de que está presente na relação, novamente pronto para nos ajudar a sentir que ainda nos mantemos em terreno seguro.

Mas como é que cada estilo sente essa insegurança e o que faz para a colmatar? O estilo Seguro procura a aproximação, mas sem a interferência do medo da rejeição, do abandono ou da asfixia. Identifica bem as suas próprias necessidades e expressa-as de forma tranquila. As relações não são negociações nem campos de batalha, antes pelo contrário. Em geral, são bons ouvintes e esforçam-se para que os desentendimentos se transformem em situações funcionais para ambas as partes.

O estilo Ansioso procura intensamente a intimidade, mas é extremamente sensível à forma como a aproximação é feita. Tem uma necessidade extrema de carinho e segurança e é muito perspicaz em detetar as necessidades do parceiro, dedicando-se ao outro com bastante espontaneidade. Sendo o foco principal o reforço do sentimento correspondido, mais facilmente se preocupa com o outro do que consigo próprio, podendo ser difícil identificar e exprimir as próprias necessidades com receio que choque com as do parceiro. Tende a anular-se em prol do bem-estar da relação, ou em satisfazer o outro em troca das chamadas migalhas de atenção. Vive na ânsia constante de se sentir amado e no receio de perder o outro, procurando assim a sensação de correspondência do sentimento em todo e qualquer gesto do parceiro.

O estilo Evitante procura fugir do compromisso porque o identifica como perda de autonomia, pelo que a proximidade e a intimidade são vistas com alguma hostilidade. Ainda que mantenha a necessidade básica de vínculo e de amor – comum a todos os seres humanos – tem tendência para se sentir sufocado quando há demasiada aproximação. No entanto, precisamente porque tem as mesmas necessidades que todos, movimenta-se numa dança de aproximação-distanciamento dependendo dos passos do outro. Quando sentem o parceiro ‘desistir’ vão atrás, mas quando se aproxima ‘dão com os pés’. Há uma tendência geral para mensagens ambíguas como reflexo do conflito entre a ideia de compromisso e o forte desejo de vínculo.

Parece paradoxal, mas o encaixe mais comum é precisamente o de um estilo Ansioso com um estilo Evitante, pois ambos reforçam no outro o sistema de crenças desenvolvido em criança: o Evitante sente que o ansioso o pressiona para uma proximidade maior do que aquela que toleram, o que ativa a sua autoperceção de defesa de que são fortes e independentes; o Ansioso vive a confirmação de que será abandonado ou rejeitado pela autoperceção de que quer mais intimidade do que a que o parceiro consegue dar. Neste sentido, as lacunas vividas na infância perpetuam-se na tentativa ilusória e infindável de as colmatar.

Como sair desta pescadinha de rabo na boca? Ganhar coragem para reconhecer o seu próprio estilo e ter a vontade de abandonar o padrão familiar, o qual nos leva a um desgaste sem frutos. Quanto mais procuramos suprir carências através do outro, mais nos encontramos num poço sem fundo. Quanto mais procuramos a sensação de autonomia afastando o outro, mais nos sentimos desconectados. O outro nunca será suficiente para colmatar as nossas necessidades de infância, até pelo simples facto de que o outro não encarna – ou não deverá encarnar – o papel de cuidador. Numa relação saudável, o parceiro é um companheiro de viagem, inclusivamente na nossa viagem de cuidarmos de nós próprios.

A relação ideal é aquela entre duas pessoas autossuficientes que se encontram num espaço maduro e responsável, pautado pela confiança, respeito e aceitação das diferenças, mantendo as necessidades e os limites do Self Adulto bem claros. Com trabalho interior de introspeção, de tomada de consciência e vontade para a mudança, qualquer pessoa consegue encaminhar- se para um estilo mais Seguro, sendo que tal só é possível vivendo e experienciando a relação. É na relação que a mudança acontece, não em isolamento. Quando dois seres se amam e decidem crescer juntos, largando velhos padrões para dar espaço a um encontro nutridor, a dedicação à mudança é a abertura para um novo modo de viver a dois. Do murchar em relação passamos a florescer, encontrando terreno para explorar o nosso potencial com uma companhia através da qual sentimos que cuidar um do outro vem na sequência da liberdade de sermos nós próprios.

Rossana Appolloni
www.rossana-appolloni.pt

Bibliografia:
Amir Levine & Rachel Heller (2011). Attached. London: Peguin.

30 de janeiro de 2018

Curso Avançado em Atendimento Psicoterapêutico Crianças e Jovens “Biossíntese Crianças e Jovens”

No próximo dia 2 de fevereiro, terá lugar no CPSB, o 2º Módulo do Curso Avançado em Atendimento Psicoterapêutico Crianças e Jovens, com Patrícia Querido! 

Ainda está a tempo de se inscrever, o curso é contínuo e pode começar em qualquer módulo! 

Este curso está focado nas necessidades e especificidades do Desenvolvimento Humano e do mundo complexo das Crianças e Jovens. Abordaremos os autores e teorias do Desenvolvimento Humano, desde a Biologia, a Educação, a Neurociência à Psicologia, aprendendo também técnicas de trabalho prático com Crianças e Jovens.

Nesta caminhada pioneira que estamos a iniciar, desejamos que esta especialização tenha uma estrutura real, ajustada às necessidades daqueles que gostariam de trabalhar na área do atendimento psicoterapêutico de crianças e jovens, que possua a cientificidade inerente às áreas que intervêm no cuidar de crianças e jovens e queremos contribuir para a formação de profissionais responsáveis com “ferramentas” e qualidades indispensáveis à intervenção nesta área que é específica e exige conhecimento e preparação.

Destinatários

Para estudantes finalistas e profissionais da Psicologia, Psicoterapia, Ensino e Saúde (Professores, Enfermeiros…) interessados em conhecer o Desenvolvimento Humano relacionado com o Acompanhamento Psicoterapêutico de Crianças e Jovens.

Excelente oportunidade de aumentar o autoconhecimento, uma vez que este curso é Teórico-Vivencial.


Competências a adquirir:

  • Análise dos princípios básicos do Desenvolvimento Humano.
  • Utilização de técnicas, procedimentos e métodos do Acompanhamento
  • Psicoterapêutico de Crianças e Jovens.
  • Adequação dos conhecimentos adquiridos, dentro da ética profissional e em ressonância com o cliente.
  • Aptidão e conhecimentos teórico-práticos para a aplicação, pesquisa e aprofundamento das noções do Acompanhamento Psicoterapêutico de Crianças e Jovens.
Informe-se: geral@cfpsb.com | 217935326

23 de janeiro de 2018

Sobre o luto e as perdas

Para os que ficam,
Há um tempo para seguir e chegar a um novo lugar
[Quando for o momento.]


Quando perdemos alguém que amamos entramos numa das fases mais difíceis da vida. E como se não fosse suficiente a perda, cria-se um silêncio tabu, deixando-nos sozinhos a lidar com essa dor.

“A vida continua”, “vais dar a volta por cima”. Sim, continua! Sim, damos a volta! Mas há um vazio que fica, uma ausência de sentidos: o cheiro, o toque, o sabor, o olhar, o ouvir. É difícil colocar por palavras. E talvez, também por isso, haja silêncio sobre o tema.

Quem está à volta não sabe lidar com a dor do outro. Talvez até na sua vivência alguma vez passou por isso… E aos poucos vão-se afastando por ser demais, por não saber lidar, porque já não se volta a ser o que se era.

Há um período de um ano em que se revive tudo. Os aniversários, os dias especiais. E a ausência fica ainda mais visível. É marcante a falta dos sentidos. E é precisamente pelos sentidos que vamos dando uma nova direção, muitas vezes com novos objetivos em mente.

Tipos de Perda
Quando falamos de perda não estamos só a falar de morte, podem ser pequenas perdas que não deixam de ser dolorosas e que passam despercebidas por amigos e família e às vezes por nós mesmos: uma doença, uma perda de emprego, a mudança de cidade ou país, a passagem para a idade adulta.

As pessoas podem mudar gradualmente. Ainda estão na nossa vida — mas não da forma que nos lembramos ou como as conhecemos. Deixa de ser possível aceder aos laços que nos ligam, às memórias partilhadas e até mesmo à personalidade. Por exemplo, com os entes queridos que desenvolvem demência, como Alzheimer, acontece não nos reconhecerem mais e aquele que era antes o seu companheiro passa a olhar para si como uma estranha.

Quando há uma doença terminal, há também uma dor antecipada da perda, de uma possível perda. A perda da saúde — mesmo a perspetiva de perdê-la — contida num diagnóstico pode ser fonte de tristeza, não apenas para a pessoa diagnosticada, mas também para os seus entes queridos. Perdemos nosso mundo hipotético. Todos os nossos planos, pensamentos, a nossa perceção de futuro e de segurança são desafiados. O futuro que conhecemos não é o que imaginámos.

Cada transição na nossa vida — não importa o quão positivas ou esperadas — implica um sentimento de mudança mais ou menos profunda. Por exemplo, o nascimento de um filho: pode ter esperado por este momento durante anos e ter ficado muito feliz, mas também sabe que a vida é diferente agora, a sua liberdade ficará limitada e de uma forma mais direta, também o seu sono.

Luto não tem sempre a ver com a morte, mas tem a ver com apego e separação.

As Fases do Luto
Consensualmente fala-se em 5 fases do luto, mas nem todas acontecem e nem sempre nessa ordem. O processo do luto depende de muitas circunstâncias: um acontecimento inesperado sem qualquer aviso prévio ou uma situação prolongada no tempo terá contornos diferentes, mas a sensação de perda está sempre presente. Desde a perda de emprego, à perda do companheiro de vida, de um filho ou até mesmo de mudança de país, há sempre uma sensação de pairar entre o que era e o que será. E por isso é fundamental dar tempo a que o processo de luto aconteça, sem forçar, sem empurrar ou apressar.

Para J. W. Worden (2002), este processo é composto de quatro tarefas:

Aceitar a realidade da perda: Quando alguém morre, ou há uma separação, há sempre a sensação de que isso não aconteceu. Ficar ciente de que esse ente querido, ou essa pessoa não volta mais faz parte do processo. O oposto seria entrar em negação: dos próprios factos da perda, do significado da própria perda, ou da irreversibilidade da perda. No caso do fim de um relacionamento temos fantasias de retorno ou de que as coisas irão funcionar apesar de todos os indicativos concretos de que a relação terminou. Para esta tarefa ser concretizada é necessário falar da perda e de todas as circunstâncias associadas à mesma: contar e recontar o que aconteceu.

Cuidar da dor da perda: é importante reconhecer e cuidar da dor da perda pois caso contrário poderá manifestar-se por alguns sintomas ou comportamentos atípicos. A intensidade com que cada um experiencia a dor e a vivencia é diferente de pessoa para pessoa, mas há sempre um grau de dor associada à perda de alguém com quem se tem um vínculo. A negação desta segunda tarefa é não sentir: parando estrategicamente os pensamentos sobre a perda ou evitar tudo o que torne essa perda presente. Emoções como choque, raiva, culpa e depressão podem surgir e a sua expressão deverá ser permitida para que o próprio sinta e saiba que um dia também essa dor vai passar. Podemos começar a dirigir a nossa raiva a todos à nossa volta: o médico não diagnosticou a doença a tempo ou raiva de si mesmo por não ter feito as coisas de forma diferente… No caso do fim de um relacionamento, raiva do ex e de elementos associados à separação (a outra mulher ou homem, ao trabalho porque foi aí que o ex “começou a mudar”). A raiva pode se dirigir a si mesmo e transformar-se em culpa. Ou apesar de sabermos racionalmente que não faz sentido, podemos dar por nós a culpar um ente querido que morreu por nos deixar. Expressar emoções de perda com pessoas próximas ou com outros que passaram pelo mesmo tipo de perda pode facilitar o processo e inclusive ser um alívio poder admitir a raiva ou qualquer outra emoção ou sentimento que surjam.

Adaptar-se à falta do outro: quando a perda envolve um filho ou alguém a quem os cuidados eram permanentes, ou mesmo a perda de um trabalho onde se coloca muito tempo e energia, significa que de repente há uma inactividade forçada. Onde havia responsabilidade, agora há vazio.  É muito provável que em algum momento, passemos a nos sentir cansados e um pouco desconectados das outras pessoas. Ficamos mais silenciosos e podemos ter alterações no apetite ou no sono. É uma fase mais profunda do luto, na qual experimentamos muita tristeza ou, caso não estivermos abertos para os nossos sentimentos, uma certa dormência emocional. Essa “depressão” não é como a depressão de um diagnóstico clínico, é uma reacção natural à perda. Por exemplo, quando um homem ou mulher se aproximam da idade da reforma, ou até mesmo na pré-reforma, podem sentir que vão deixar de ser quem eram, quando o trabalho era onde colocavam toda a sua energia. Nesta adaptação à perda é importante ir criando novos horários e responsabilidades, mas também criar rituais significativos como um passeio a um local que dá prazer, manter um diário ou escrever poesia, marcar sessões de relaxamento ou massagem. Esses momentos podem ajudar a viver as emoções difíceis e deixar o processo do luto acontecer com mais suavidade.

Transformação emocional e seguir com a vida: Para quem perde alguém, retirar o vínculo emocional pode ser sentido como se estivesse a desonrar a memória dessa perda. Voltar a ter um filho ou um novo companheiro após a sua morte pode ser assustador e muitas vezes projecta-se a ideia de uma nova perda. Para muitos esta é a tarefa mais difícil do processo do luto. É frequente em terapia percebermos que o cliente ficou parado no momento da perda mantendo, por exemplo, quartos intactos, ainda que tenham passado vários anos desde a morte do seu ente querido. Adaptar-se à perda e voltar a uma vida funcional é importante, mas é também necessário transformar o vínculo para algo saudável que permita aceder a memórias e a manter um contacto simbólico ou espiritual com quem já partiu.


Apoio Profissional
O momento de voltar a viver é muitas vezes assustador, mesmo quando começamos aos poucos a fazer actividades com amigos e a conhecer novas pessoas que nem sabem o que aconteceu. Decidir o que dizer e partilhar depende de cada um. Podem desenvolver-se novas relações que ajudam a retomar a vida. Mas pode haver momentos em que se lamenta a perda, seja de que tipo for e para lidar com a dor e o sofrimento, é preciso encontrar pessoas a quem se possa confidenciar o sentir, bem como profissionais (psicólogos ou psicoterapeutas) e/ou grupos de apoio que possam ajudar a passar os vários momentos do luto.

O mais importante é que as decisões sejam tomadas de acordo com o que é melhor para cada um de nós e para as pessoas que nos rodeiam e que nos são queridas.

Lidar com a perda é uma experiência humana, mas em que cada um lida de forma única. Cada um sabe o que se passa consigo, mas poder contar com o apoio dos outros faz com que esse tempo seja um tempo de colo, uma espécie de útero para poder (re)nascer, onde se vai completando as tarefas associadas ao processo de luto. É por isso fundamental o apoio psicológico ou psicoterapêutico para que os momentos difíceis possam ser vividos de forma plena e sem medo de desabar.

No final desse processo alcançamos finalmente alguma paz com a perda que tivemos e não há mais aquela sensação de querer voltar ao que era antes. Ainda podemos sentir tristeza ou saudades, mas voltamos a pensar no futuro e passamos a sentir que algo novo irá aparecer nas nossas vidas. Esse momento não chega de uma hora para outra e nem é um mar de rosas, mas pouco a pouco, quase sem perceber, chega e fica. Quando esse momento fica suficientemente sólido é quando, por exemplo, passamos a comemorar o aniversário de um ente querido que morreu fazendo algo que nos faz bem. É quando a lembrança de quem não está mais connosco dá mais alegria do que vontade de chorar. É o momento em que ficamos realmente em paz e entendemos de coração porque aquela relação não resultou. Ou quando olhamos a nossa própria doença e a aceitamos por aquilo que nos permitiu transformar em nós e nas dinâmicas com os que estão à nossa volta.


Texto de Catarina Lourenço de Carvalho
http://musicterapiacorporal.wixsite.com/musicoterapia


Referências / Bibliografia

Doka, K. J. (2016). Grief Is a Journey: Finding Your Path Through Loss. New York: Atria Books.

 

National Kidney Foundation (2001). The Grief Journey: The Death of a Spouse or Lifetime Companion. New York: National Kidney Foundation, Inc. 

National SIDS/Infant Death Resource Center (2005). The Death of a Child - The Grief of the Parents: A Lifetime Journey. Virginia: U.S. Department of Health and Human Services, Health Resources and Services Administration.

Worden J. W. (2002). Grief Counseling and Grief Therapy: A Handbook for the Mental Health Practitioner (Third Edition). New York: Springer Publishing Company.