30 de janeiro de 2018

Curso Avançado em Atendimento Psicoterapêutico Crianças e Jovens “Biossíntese Crianças e Jovens”

No próximo dia 2 de fevereiro, terá lugar no CPSB, o 2º Módulo do Curso Avançado em Atendimento Psicoterapêutico Crianças e Jovens, com Patrícia Querido! 

Ainda está a tempo de se inscrever, o curso é contínuo e pode começar em qualquer módulo! 

Este curso está focado nas necessidades e especificidades do Desenvolvimento Humano e do mundo complexo das Crianças e Jovens. Abordaremos os autores e teorias do Desenvolvimento Humano, desde a Biologia, a Educação, a Neurociência à Psicologia, aprendendo também técnicas de trabalho prático com Crianças e Jovens.

Nesta caminhada pioneira que estamos a iniciar, desejamos que esta especialização tenha uma estrutura real, ajustada às necessidades daqueles que gostariam de trabalhar na área do atendimento psicoterapêutico de crianças e jovens, que possua a cientificidade inerente às áreas que intervêm no cuidar de crianças e jovens e queremos contribuir para a formação de profissionais responsáveis com “ferramentas” e qualidades indispensáveis à intervenção nesta área que é específica e exige conhecimento e preparação.

Destinatários

Para estudantes finalistas e profissionais da Psicologia, Psicoterapia, Ensino e Saúde (Professores, Enfermeiros…) interessados em conhecer o Desenvolvimento Humano relacionado com o Acompanhamento Psicoterapêutico de Crianças e Jovens.

Excelente oportunidade de aumentar o autoconhecimento, uma vez que este curso é Teórico-Vivencial.


Competências a adquirir:

  • Análise dos princípios básicos do Desenvolvimento Humano.
  • Utilização de técnicas, procedimentos e métodos do Acompanhamento
  • Psicoterapêutico de Crianças e Jovens.
  • Adequação dos conhecimentos adquiridos, dentro da ética profissional e em ressonância com o cliente.
  • Aptidão e conhecimentos teórico-práticos para a aplicação, pesquisa e aprofundamento das noções do Acompanhamento Psicoterapêutico de Crianças e Jovens.
Informe-se: geral@cfpsb.com | 217935326

23 de janeiro de 2018

Sobre o luto e as perdas

Para os que ficam,
Há um tempo para seguir e chegar a um novo lugar
[Quando for o momento.]


Quando perdemos alguém que amamos entramos numa das fases mais difíceis da vida. E como se não fosse suficiente a perda, cria-se um silêncio tabu, deixando-nos sozinhos a lidar com essa dor.

“A vida continua”, “vais dar a volta por cima”. Sim, continua! Sim, damos a volta! Mas há um vazio que fica, uma ausência de sentidos: o cheiro, o toque, o sabor, o olhar, o ouvir. É difícil colocar por palavras. E talvez, também por isso, haja silêncio sobre o tema.

Quem está à volta não sabe lidar com a dor do outro. Talvez até na sua vivência alguma vez passou por isso… E aos poucos vão-se afastando por ser demais, por não saber lidar, porque já não se volta a ser o que se era.

Há um período de um ano em que se revive tudo. Os aniversários, os dias especiais. E a ausência fica ainda mais visível. É marcante a falta dos sentidos. E é precisamente pelos sentidos que vamos dando uma nova direção, muitas vezes com novos objetivos em mente.

Tipos de Perda
Quando falamos de perda não estamos só a falar de morte, podem ser pequenas perdas que não deixam de ser dolorosas e que passam despercebidas por amigos e família e às vezes por nós mesmos: uma doença, uma perda de emprego, a mudança de cidade ou país, a passagem para a idade adulta.

As pessoas podem mudar gradualmente. Ainda estão na nossa vida — mas não da forma que nos lembramos ou como as conhecemos. Deixa de ser possível aceder aos laços que nos ligam, às memórias partilhadas e até mesmo à personalidade. Por exemplo, com os entes queridos que desenvolvem demência, como Alzheimer, acontece não nos reconhecerem mais e aquele que era antes o seu companheiro passa a olhar para si como uma estranha.

Quando há uma doença terminal, há também uma dor antecipada da perda, de uma possível perda. A perda da saúde — mesmo a perspetiva de perdê-la — contida num diagnóstico pode ser fonte de tristeza, não apenas para a pessoa diagnosticada, mas também para os seus entes queridos. Perdemos nosso mundo hipotético. Todos os nossos planos, pensamentos, a nossa perceção de futuro e de segurança são desafiados. O futuro que conhecemos não é o que imaginámos.

Cada transição na nossa vida — não importa o quão positivas ou esperadas — implica um sentimento de mudança mais ou menos profunda. Por exemplo, o nascimento de um filho: pode ter esperado por este momento durante anos e ter ficado muito feliz, mas também sabe que a vida é diferente agora, a sua liberdade ficará limitada e de uma forma mais direta, também o seu sono.

Luto não tem sempre a ver com a morte, mas tem a ver com apego e separação.

As Fases do Luto
Consensualmente fala-se em 5 fases do luto, mas nem todas acontecem e nem sempre nessa ordem. O processo do luto depende de muitas circunstâncias: um acontecimento inesperado sem qualquer aviso prévio ou uma situação prolongada no tempo terá contornos diferentes, mas a sensação de perda está sempre presente. Desde a perda de emprego, à perda do companheiro de vida, de um filho ou até mesmo de mudança de país, há sempre uma sensação de pairar entre o que era e o que será. E por isso é fundamental dar tempo a que o processo de luto aconteça, sem forçar, sem empurrar ou apressar.

Para J. W. Worden (2002), este processo é composto de quatro tarefas:

Aceitar a realidade da perda: Quando alguém morre, ou há uma separação, há sempre a sensação de que isso não aconteceu. Ficar ciente de que esse ente querido, ou essa pessoa não volta mais faz parte do processo. O oposto seria entrar em negação: dos próprios factos da perda, do significado da própria perda, ou da irreversibilidade da perda. No caso do fim de um relacionamento temos fantasias de retorno ou de que as coisas irão funcionar apesar de todos os indicativos concretos de que a relação terminou. Para esta tarefa ser concretizada é necessário falar da perda e de todas as circunstâncias associadas à mesma: contar e recontar o que aconteceu.

Cuidar da dor da perda: é importante reconhecer e cuidar da dor da perda pois caso contrário poderá manifestar-se por alguns sintomas ou comportamentos atípicos. A intensidade com que cada um experiencia a dor e a vivencia é diferente de pessoa para pessoa, mas há sempre um grau de dor associada à perda de alguém com quem se tem um vínculo. A negação desta segunda tarefa é não sentir: parando estrategicamente os pensamentos sobre a perda ou evitar tudo o que torne essa perda presente. Emoções como choque, raiva, culpa e depressão podem surgir e a sua expressão deverá ser permitida para que o próprio sinta e saiba que um dia também essa dor vai passar. Podemos começar a dirigir a nossa raiva a todos à nossa volta: o médico não diagnosticou a doença a tempo ou raiva de si mesmo por não ter feito as coisas de forma diferente… No caso do fim de um relacionamento, raiva do ex e de elementos associados à separação (a outra mulher ou homem, ao trabalho porque foi aí que o ex “começou a mudar”). A raiva pode se dirigir a si mesmo e transformar-se em culpa. Ou apesar de sabermos racionalmente que não faz sentido, podemos dar por nós a culpar um ente querido que morreu por nos deixar. Expressar emoções de perda com pessoas próximas ou com outros que passaram pelo mesmo tipo de perda pode facilitar o processo e inclusive ser um alívio poder admitir a raiva ou qualquer outra emoção ou sentimento que surjam.

Adaptar-se à falta do outro: quando a perda envolve um filho ou alguém a quem os cuidados eram permanentes, ou mesmo a perda de um trabalho onde se coloca muito tempo e energia, significa que de repente há uma inactividade forçada. Onde havia responsabilidade, agora há vazio.  É muito provável que em algum momento, passemos a nos sentir cansados e um pouco desconectados das outras pessoas. Ficamos mais silenciosos e podemos ter alterações no apetite ou no sono. É uma fase mais profunda do luto, na qual experimentamos muita tristeza ou, caso não estivermos abertos para os nossos sentimentos, uma certa dormência emocional. Essa “depressão” não é como a depressão de um diagnóstico clínico, é uma reacção natural à perda. Por exemplo, quando um homem ou mulher se aproximam da idade da reforma, ou até mesmo na pré-reforma, podem sentir que vão deixar de ser quem eram, quando o trabalho era onde colocavam toda a sua energia. Nesta adaptação à perda é importante ir criando novos horários e responsabilidades, mas também criar rituais significativos como um passeio a um local que dá prazer, manter um diário ou escrever poesia, marcar sessões de relaxamento ou massagem. Esses momentos podem ajudar a viver as emoções difíceis e deixar o processo do luto acontecer com mais suavidade.

Transformação emocional e seguir com a vida: Para quem perde alguém, retirar o vínculo emocional pode ser sentido como se estivesse a desonrar a memória dessa perda. Voltar a ter um filho ou um novo companheiro após a sua morte pode ser assustador e muitas vezes projecta-se a ideia de uma nova perda. Para muitos esta é a tarefa mais difícil do processo do luto. É frequente em terapia percebermos que o cliente ficou parado no momento da perda mantendo, por exemplo, quartos intactos, ainda que tenham passado vários anos desde a morte do seu ente querido. Adaptar-se à perda e voltar a uma vida funcional é importante, mas é também necessário transformar o vínculo para algo saudável que permita aceder a memórias e a manter um contacto simbólico ou espiritual com quem já partiu.


Apoio Profissional
O momento de voltar a viver é muitas vezes assustador, mesmo quando começamos aos poucos a fazer actividades com amigos e a conhecer novas pessoas que nem sabem o que aconteceu. Decidir o que dizer e partilhar depende de cada um. Podem desenvolver-se novas relações que ajudam a retomar a vida. Mas pode haver momentos em que se lamenta a perda, seja de que tipo for e para lidar com a dor e o sofrimento, é preciso encontrar pessoas a quem se possa confidenciar o sentir, bem como profissionais (psicólogos ou psicoterapeutas) e/ou grupos de apoio que possam ajudar a passar os vários momentos do luto.

O mais importante é que as decisões sejam tomadas de acordo com o que é melhor para cada um de nós e para as pessoas que nos rodeiam e que nos são queridas.

Lidar com a perda é uma experiência humana, mas em que cada um lida de forma única. Cada um sabe o que se passa consigo, mas poder contar com o apoio dos outros faz com que esse tempo seja um tempo de colo, uma espécie de útero para poder (re)nascer, onde se vai completando as tarefas associadas ao processo de luto. É por isso fundamental o apoio psicológico ou psicoterapêutico para que os momentos difíceis possam ser vividos de forma plena e sem medo de desabar.

No final desse processo alcançamos finalmente alguma paz com a perda que tivemos e não há mais aquela sensação de querer voltar ao que era antes. Ainda podemos sentir tristeza ou saudades, mas voltamos a pensar no futuro e passamos a sentir que algo novo irá aparecer nas nossas vidas. Esse momento não chega de uma hora para outra e nem é um mar de rosas, mas pouco a pouco, quase sem perceber, chega e fica. Quando esse momento fica suficientemente sólido é quando, por exemplo, passamos a comemorar o aniversário de um ente querido que morreu fazendo algo que nos faz bem. É quando a lembrança de quem não está mais connosco dá mais alegria do que vontade de chorar. É o momento em que ficamos realmente em paz e entendemos de coração porque aquela relação não resultou. Ou quando olhamos a nossa própria doença e a aceitamos por aquilo que nos permitiu transformar em nós e nas dinâmicas com os que estão à nossa volta.


Texto de Catarina Lourenço de Carvalho
http://musicterapiacorporal.wixsite.com/musicoterapia


Referências / Bibliografia

Doka, K. J. (2016). Grief Is a Journey: Finding Your Path Through Loss. New York: Atria Books.

 

National Kidney Foundation (2001). The Grief Journey: The Death of a Spouse or Lifetime Companion. New York: National Kidney Foundation, Inc. 

National SIDS/Infant Death Resource Center (2005). The Death of a Child - The Grief of the Parents: A Lifetime Journey. Virginia: U.S. Department of Health and Human Services, Health Resources and Services Administration.

Worden J. W. (2002). Grief Counseling and Grief Therapy: A Handbook for the Mental Health Practitioner (Third Edition). New York: Springer Publishing Company.

31 de dezembro de 2017

Dezembro: CTRL+ALT+DEL?


Está a chegar o fim do ano! Altura para fazer um CTRL+ALT+DEL a nós próprios. Vejamos… Bloquear computador? Não vamos usar essa opção para finalizar o ano! Vamos mudar essa tecla para “desbloquear computador”. Sim, isso sim: desbloquear, fluir. É o ideal para encerrar capítulos e para nos sentirmos bem connosco: fluir. Não deixar nada bloqueado, seja a comunicação, a energia ou o movimento.
E a seguir? Terminar sessão. Sim, por vezes é doloroso, mas existem muitas coisas nas nossas vidas que precisam de ser terminadas e guardadas. Podem ser relações, atitudes, formas de olhar para algo. E é sempre mais fácil permanecer no doloroso conforto da segurança e não mandar embora aquilo que já está velho e que já devia de ter seguido o seu rumo para dar lugar ao novo. Então, como deixar de fazer pequenos movimentos que não nos fazem bem, para irmos pouco a pouco?
Encerrar sessão? O processo pessoal de desenvolvimento não tem um fim à vista, é um caminho que se vai trilhando, dia após dia.
Nesta altura também é preciso alterar a palavra passe. Quem tem acesso a nós? E quanto de nós deixamos para o outro ver? Às vezes é necessário perceber se as nossas muralhas estão demasiado elevadas ou se não estamos a respeitar o nosso espaço, os nossos limites.
É também uma altura de pensar no trabalho, temos de clicar no gestor de tarefas. Como estamos na área do “fazer”? Por vezes assumimos mais responsabilidades do que aquelas que podemos suster, e se for demais, é importante ouvir o que o corpo tem para dizer. Têm ouvido as queixas dele? E quando fazemos menos do que aquilo que devemos também podemos trazer grandes complicações. Como em tudo, é preciso encontrar um equilíbrio. E esse equilíbrio não é igual todos os dias e também não é o mesmo para todas as pessoas. Somos únicos, diferentes, e também, diferentes dentro de nós a cada dia que passa.
Cancelar? Sim, podem sempre cancelar a reflexão do final do ano, afinal, é tudo muito simbólico, não é? Por isso, seja quando for, onde for, Bom Ano Novo dentro de vocês!

Texto de Ana Caeiro, Psicoterapeuta Corporal em Biossíntese
http://psicoterapiacorporal.pt/
psicorporal.bio@gmail.com

Foto retirada de Unsplash

28 de dezembro de 2017

“Onde quer que haja alguém dançando, há também alegria” (A.Lowen)

Nota Prévia: O texto que se segue foi escrito por mim para ser apresentado num colóquio sobre o Batuque de Cabo-Verde, no Museu de Etnologia em Abril de 2016. Trata-se de uma pequena reflexão sobre os benefícios terapêuticos deste género musical. O Batuque é talvez o mais antigo género musical cabo-verdeano, composto por três ritmos, melodia, ou seja , percussão e canto, acompanhado de uma dança, que se desenvolve,  em crescendo, uma ou duas dançarinas de cada vez,  no interior do círculo de percussão, quase exclusivamente feminino. Antes de ser uma prática performativa é uma prática integrativa, bastante curativa.


“Onde quer que haja alguém dançando, há também alegria” (A.Lowen)

Há uns anos consultei uma médica alemã com a minhas filhas e a prescrição básica que trouxemos foi que uma deveria cantar e que outra seria bom que dançasse. Embora desconhecendo o alcance e fundamentação de tais recomendações, encarámo-las a sério e lá se foram concretizando e revelando mais essenciais do que na altura nos poderia parecer.

Coincidentemente, nesse mesmo ano, 2004, comecei uma pós-graduação em Psicoterapia Somática em Biossíntese; mais tarde deixei o ensino, depois de 34 anos como professora do ensino secundário, e tornei-me, ou estou a tornar-me, psicoterapeuta…

Porque falo deste episódio biográfico e familiar? Porque só depois de estudar autores como Wilhem Reich, Alexander Lowen, David Boadella, Stephen Porges, António Damásio, Dan  Siegel  e de conhecer um  pouco do que a epigenética e as neurociências descobrem actualmente,  pude perceber um pouco melhor a justeza e seriedade dos conselhos  da Drª Erika.

Só a título de ilustração deixo aqui uma definição relativamente recente do que será a mente: “ The mind can be defined as an embodied process that regulates the flow of energy and information. Regulation is at the heart of mental life, and helping others with this regulatory balance is central to understanding how the mind can change. The brain has self-regulatory circuits that may directly contribute to enhancing how the mind regulates the flow of its two elements, energy and information. (Daniel Siegel).

Compreende-se, pois, que se trata de um sistema complexo, não linear, em que áreas distintas do cérebro, e do corpo, se especializam em várias e diferentes funções que, depois, são chamadas à sua integração.

Esta integração caracteriza-se por um estado que busca o equilíbrio e o bem-estar e que pode ser descrito pelo acróstico, segundo mesmo autor, de FACES (flexível, adaptativo, coerente, energético e stable (estável), considerando um espectro em que, numa das extremidades temos o caos, na outra a rigidez, em ambas a dificuldade de viver e os estados patológicos.

Frequentemente, em situações de stress, retraímo-nos, afastamo-nos, limitamos a nossa participação no mundo e, para evitar o grande sofrimento, entramos num estado de quase “anestesia”; neste movimento buscamos proteção e segurança, mas, paradoxalmente, a médio ou longo prazo, temos o efeito contrário

As situações de stress excluem-nos, expulsam-nos das relações interpessoais em vez de nos levar a refugiarmo-nos nelas, como seria natural e desejável, já que os seres humanos precisam de outros para regular os seus próprios estados mentais e emocionais.

Diz Siegel ainda: “a mente emerge a partir da actividade do cérebro, cuja estrutura e função são directamente moldadas pela experiência interpessoal” ; dito por outras palavras "eu crio o meu cérebro com os meus pensamentos, emoções e sentimentos “embodied” (corporificados) , mas  tu também crias  o meu cérebro, e eu o teu", ou seja, “eu sou porque tu és” (Dolto) , requisito da humanização, sabendo que, quando estamos em sofrimento, estamos muitas vezes confinados ao  não dito, ao silêncio, ao isolamento.

Stephen Porges que desenvolveu um importante trabalho para a compreensão do trauma, sugere estratégias para o encarar e “resolver”, ao alcance de todos, e que tradicionalmente eram  praticadas, como no caso do Batuque, que podem ir desde bater num tambor, tocar um instrumento, especialmente de sopro, uma flauta de pastor (o sopro é activador do nervo vago, responsável pelos estados do  parassimpático de calma e relaxamento), cantar, falar em voz baixa, recitar poesia, recitar mantras, rezar, ouvir música...

A Psicoterapia Corporal procura entender a pessoa no seu todo, observando o corpo, a mente, o espirito, sem dicotomias, como um processo único, indissociável, em que as várias dimensões interagem, comunicam, regulam o tempo todo. O seu principal objetivo é ajudar a capacidade que temos, pois, de nos regularmos, de nos autorregularmos, seja energética, física, racional ou emocionalmente. É sempre equilíbrio, desequilíbrio, auto-consciência, autorregulação e co-regulação.

Uma das vias para atingir esse objetivo será através da consciência corporal. Essa consciência de si é algo que só pode ser adquirido por etapas, num processo de construção de uma identidade, feito de escuta do corpo, observando como este se encontra, respira, pulsa, se contrai, se distende, se emociona, se exprime etc... A dança constitui-se neste contexto, como um meio privilegiado, entre outros, para ir ganhando tal consciência, passando talvez por um processo gradual, como as partes do corpo: pernas, braços, ancas, ombros, cabeça, tronco, articulações, consciência da dinâmica do movimento. 

Assim, percebendo como a nossa vitalidade está e como flui através dos movimentos da dança, podemos detetar pontos de tensão e, consequentemente, buscar, permitir, de novo, uma “certa homeostase”, para que, realizando movimentos livres, fluídos e criativos, seja possível restabelecer a livre circulação energética, a pulsação saudável. A dança e a sua vivência proporcionam um espaço de experimentação de vários ritmos, e, através de movimentos diferentes, a pessoa vai encontrando a sua forma de fazer e de estar criativamente.

A força das psicoterapias corporais reside no facto de juntar à palavra, o movimento, a respiração consciente, a memória celular e corporal, favorecendo um profundo entendimento e integração do vivido, pensado, sentido, agido, possibilitando a alteração dos mesmos quando necessário.

Esta breve introdução serve para enquadrar a qualidade terapêutica de uma prática integrativa que mobiliza a pessoa de múltiplas formas como é caso do Batuque, um círculo de mulheres que se juntam para tocar, cantar, dançar, transmitir, aprender, desabafar, libertar, divertir.

Um dos principais conceitos das psicoterapias corporais é o conceito de grounding, que significa "enraizamento", ter os pés na terra, por isso o nome “Finka-pé” do grupo de batucadeiras da Cova da Moura, me interpelou assim que o conheci. Nesta expressão encontramos sintetizados aspectos importantes do nosso bem-estar físico, emocional, social, afectivo: possibilidade de “incorporar”, de estar no aqui e agora, ocupar o seu lugar/território, de se equilibrar, de estar em si, consigo, de ter os pés bem assentes no chão, "cair na real”.

Cada uma das mulheres tem o seu momento, quer seja no canto, quer seja na dança, sentindo a força do grupo, das outras mulheres, numa identificação que cria poder interno e de grupo.

finaçon de cada batucadeira, cujas palavras irão ser repetidas pelo grupo vai permitir-lhe sentir o acolhimento das suas preocupações, dores, alegrias, dúvidas, anseios etc. O facto de ouvir repetidas e amplificadas as suas palavras, sem julgamentos nem inibições, cria certamente um campo seguro, ou melhor, um espelhamento, feito de atenção dos seus pares, compreensão da sua condição, validação do que exprime, num ambiente sustentável e sustentado, profundamente  curativo.

A voz humana, mesmo sem palavras, pode dar-nos confiança, , acalmar-nos, pode ferir-nos irritar-nos; quando a ela se juntam as palavras, os sentidos, os sentimentos, estamos plenamente no humano.

Como diz Stephen Porges:

First, the area of the brainstem that regulates the heart (i.e., via the new vagus) also regulates the muscles of the head including those of the face, middle ear, mouth, larynx, and pharynx. When we studied the general function of these muscles, we realized that collectively these muscles provide an integrated Social Engagement System that controls looking, listening, vocalizing, and facial gesturing.

O batuque propõe às mulheres que o praticam uma libertação da região pélvica, que começa com o contorno (o pano que atam nos quadris), contendo a região para melhor a sentir e poder libertar. Toda a preparação preanuncia e ensaia a coreografia que depois se intensifica e expande. O movimento começa devagar e suavemente, e, num crescendo vai percorrendo e refazendo o percurso natural e saudável da curva de carga e descarga de orgone, como Reich chamou à energia vital. A essa curva Reich chamou curva orgástica, facilmente se visualiza a acumulação de carga libidinal até atingir um ponto máximo, seguido de descarga e repouso. Esta curva existe e está presente muito para lá da actividade sexual.

Entendia Reich, tal como Freud, que a neurose era construída em grande parte pela repressão da vitalidade, da líbido, do eros. Portanto, a sua expressão e libertação favorecem claramente a saúde,o bem-estar e a alegria.

Cada um destes conceitos (grounding,sounding) está vinculado ao sistema muscular e esquelético, ao sistema nervoso autônomo e visceral e ao sistema nervoso central e ao cérebro.

Sabe-se que a percussão é um excelente exercício, treino, para o cérebro, torna-nos mais vivos, em contraponto com a anestesia a que nos levam muitas vezes as situações traumatizantes, porque quando tocamos/rufamos acedemos ao nosso cérebro por inteiro, a transmissão física energética do ritmo ao cérebro sincroniza os dois hemisférios.
Assim, quando o hemisfério esquerdo (racional) e o direito (mais ligado à intuição e criatividade) “pulsam” em uníssono, ficamos mais inteligentes, mais despertos, mais intuitivos.

Rufar também ajuda a sincronizar as partes mais primitivas, arcaicas do cérebro, reptiliano (auto-preservação e defesa) ,  límbico ( emoções ) com o córtex pré- frontal  (linguagem , planeamento , reflexão, tomada de decisão, modulação de comportamento) . A integração das três camadas produz insight, clareza, confiança.

Por estas razões a percussão tem vindo a ser usada em várias doenças como TDA, recuperação pós-enfarte, doenças neurológicas como o Parkinson, entre outras.

A percussão/ Batuque também leva a um profundo relaxamento, num estudo em que se analisaram amostras de sangue dos participantes de uma roda de percussão, verificou-se que, depois de uma sessão de uma hora, tinha havido uma redução das hormonas do stress.

Participar numa sessão de percussão, sobretudo coletiva, em círculo, como no batuque, torna-nos, pois, mais felizes através da libertação de endorfinas, encefalinas (opióides naturais) e pelo facto das ondas do cérebro se alterarem passando às Alfa, estas geram chamado "estado em Alfa”, em que lançados na circulação sanguínea os neurotransmissores responsáveis pela sensação de bem-estar e regeneração. O aumento da produção das encefalinas, opioídes naturais, dá uma espécie de “moca” natural, que pode ser muito benéfica nalgumas doenças do foro psicológico como sejam a depressão e a ansiedade, ajuda ainda a controlar a dor, uma vez que estas hormonas também são anestesiantes naturais.

A percussão/ batuque impulsiona o nosso sistema imunitário. O neurologista, Barry Bittman, provou que os membros de um grupo de percussão, de facto, tinham tido um aumento de células T, as que ajudam o corpo a combater doenças, os vírus, as doenças. Felizmente, para nós que não rufamos, ouvir tem efeito semelhante. O som da percussão / batuque gera novas conecções neuronais em todas as partes do cérebro, e quantas mais houver, melhor será a integração das nossas experiências e vivências.

A roda de percussão cria uma forte sensação de ligação e pertença, promovendo a sincronização e sincronicidade o que ajuda bastante a conectar consigo e com os outros que, como nós, tocam o mesmo ritmo. Era, e é, muito usada em ritos xamânicos, na convicção de que se trata de uma ferramenta que permite aceder a “um poder superior”. Os curandeiros focam a sua atenção no corpo no seu todo, possibilitando a cura quer a nível físico, quer a nível mental, espiritual. Crêem que através da percussão se conecta, simultaneamente, com as forças telúricas (da terra) e as forças sobrenaturais. 
Ajuda no alinhamento do corpo/mente/ espírito com o mundo natural.

Ritmo vem do grego Rhythmos e designa aquilo que o flui, que se move, movimento regulado. O ritmo está inserido em tudo na nossa vida.Tocar/rufar permite-nos pois fluir com os ritmos da vida ou simplesmente sentir a batida.  

Gostava de terminar lendo um poema de Luiz Tatit, que sintetiza de forma económica e bela, como os poetas sabem fazer, aquilo que procurei dizer:

Baião De Quatro Toques

Quando bater no coração
Quatro pancadas e depois um bis
Pode escrever não falha não
É a tentação de ser muito feliz

Por isso é bom esse baião de quatro toques
Carregadinho de premonição
Ele não deixa que a batida se desloque
E que se afaste do seu coração

Pra quem compôs, pra quem tocou
e pra quem ouve
É o destino que sempre se quis
É uma quinta sinfonia de Beethoven
Que decantou e só ficou a raiz

Dá pra sentir
A exatidão
No tiquetaque do seu coração
Dá pra entender
Que esse baião
De quatro toques
Tanto tentou
Tanto tentou
Que se tornou
A tentação desse país
De ser assim feliz

Texto de Joana Quintino, Psicoterapeuta Somática em Biossíntese

Bibliografia
Lowen, Alexander- O corpo em Terapia- a abordagem bioenergética-Editora Summus, janeiro de 1977  
Siegel, Daniel, The Mindful Therapist: A Clinician's Guide to Mindsight and Neural Integration -Hardcover edition -W. W. Norton & Company (2010)